HIPÁTIA

Estava lendo um artigo sobre os Super-Heróis e a religião, escrito por Vinicius Oliveira e, já terminando a leitura, dei uma olhada no final da página e me deparei com um nome: “Hipatia”. Vasculhei a memória à procura de algo sobre ela e cheguei à conclusão de que nunca havia ouvido nada sobre ela.

Dei um clique em cima do nome e descobri que Hipatia fora uma mulher cientista da antiguidade. Ela havia sido assassinada por uma multidão revoltada de cristãos no século V d.C.

Usando esse fato, os seguidores do ateísmo aproveitavam o fato para justificar mais uma hostilidade ao cristianismo baseado num cientificismo insustentável e sem sentido. Já os cristãos encararam o fato dizendo que o ocorrido se deu por ela ser uma cientista com conhecimento superior aos homens da sua época e que, agindo desse modo, foi de encontro aos conceitos da época altamente discriminatório com relação à mulher. Fiquei curioso em saber quem tinha razão e resolvi fazer uma pesquisa sobre o assunto.

Em alguns arquivos que li, dentre outros, cito, apenas,os encontrados no site de Rubens Antonio.blogspot.com.br e Vinicius Oliveira no site Caos&Regresso, pude entender um pouco da vida dessa mulher extraordinária. Uma excepcional, bela e notável mulher, cuja vida mostrou-a bem à frente do seu tempo, cuja dedicação ao conhecimento só não teve um maior desenvolvimento por causa da sua morte prematura.

Existe controvérsias quanto à data do seu nascimento que é discutida apresentando uma estimativa entre 355 a 370 d.C. na Alexandria, no Egito. Seu pai, o filósofo Theon, último diretor da Biblioteca da Alexandria, decepcionado com a pouca evolução cultural dos homens da época e, como só tivera uma filha, ele tentou transformá-la num ser humano perfeito. Desenvolveu um programa de treinamento físico para assegurar um corpo saudável. Natação, passeios a cavalo e escalada de montanha eram uma parte regular de seu regime. Ao mesmo tempo, educou-a em matemática, geometria, astronomia e filosofia. Fez com que estudasse com os melhores matemáticos, astrônomos e filósofos da época, muitas vezes tendo que, para isso, viajar para cidades distantes. Sócrates, o Escolástico, escreveu sobre ela: "Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Téon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu próprio tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia aos seus ouvintes, muitos dos quais vinham de longe receber os seus ensinamentos.” De acordo com um texto antigo chamado Suda, ela fez observações

 

No nosso entender, salvo melhor juízo, o que aconteceu foi em decorrência dela ter entrado num redemoinho vivencial e político ao ficar envolvida e, por isso, vulnerável, através do envolvimento com o Prefeito de Alexandria, Orestes, o qual tinha uma enorme desavença com o bispo católico da cidade, Cirillo. Tanto Tim O'Neil, historiador ateísta, quanto Robert Barron, padre católico, concordam que, tenha sido por acaso ou por escolha, o drama de Hipátia, que sempre esteve envolvida com questões civis, foi estar no meio de uma disputa política entre duas grandes forças de Alexandria. A sua morte foi resultado de um ato inconsequente, não de algo planejado ou ordenado. O'Neil esclarece que a tensão começou quando um grupo de monges vindos do deserto chegou a Alexandria para suportar Cirilo, o que resultou num conflito em que Orestes fora acertado por uma pedra, na cabeça. Orestes, não aceitando o ocorrido, capturou o responsável e o submeteu à tortura, o que o levou à morte. Enfurecidos, os seguidores de Cirilo (com ou sem o seu conhecimento), encontraram Hipátia, seguidora política de Orestes, e se vingaram seqüestrando e torturando-a até a morte. Isto ocorreu no ano 415 d.C.Este ato de vingança continuou mesmo após a sua morte quando todos os seus livros foram queimados.

 

Alguns artigos citam que, pouco tempo depois da morte de Hipatia, a biblioteca da Alexandria foi destruída. Na verdade, a primeira Biblioteca da Alexandria foi destruída em 47 ou 48 a.C., bem antes do nascimento de Hipatia. Já a biblioteca “filha” que foi construída com o que restou da primeira, na área do Serapeu, - o grande templo do deus híbrido greco-egípcio de Ptolomeu, Serápis A destruição maciça do conteúdo da Biblioteca de Alexandria pelos cristãos durante o reinado do imperador cristão Teodósio, em 391 dC, antes do assassinato de Hepatia, em respresália à morte de vários cristãos no interior do templo. Isto foi, apenas, uma pequena parte da supressão e eliminação da verdade científica e histórica.

 

Durante esses anos, os escritos e obras de muitas mulheres notáveis foram destruídos, permissão para ser perdido, ou deliberadamente erradicada; apenas, insinuações continuam, um verso aqui, algumas frases lá. A maioria das obras de Hypatia foram devastados mas sua história continua viva. Como deve ter triste para uma jovem de mente aberta e de uma cultura invejável de 21 anos, ter presenciado a destruição.

 

Ao se fazer uma retrospectiva na vida da maioria dos cientistas, constata-se que eles fizeram história pela importância dos seus trabalhos científicos ou da maneira como viveram. Com Hipátia foi diferente. Na maioria dos artigos que li referiam-se a ela pelo seu assassinato brutal. Na maioria dos casos, tudo ocorreu porque, segundo o Dr. Peter Moore: “ numa época que precederam à ascensão do Cristianismo e a queda do Império romano as idéias eram sustentadas com fervor e defendidas vigorosamente. Para muitos líderes importantes o que mais importava na vida era ser fisicamente saudável e intelectualmente poderoso.” A ascensão desta mulher prodígio chocava contra os preconceitos dos pais fundadores da filosofia racional helenística, dos quais era intelectualmente herdeira. Enquanto Platão, na sua máscula soberba, defendia que “a mulher, em relação à virtude, é naturalmente inferior ao homem”, Sócrates fazia render o poder do seu falo e afirmava que “a coragem do homem revela-se no comando, e a da mulher na obediência.” No entanto, contra todos os conceitos da época, Hipátia, ensinava a homens, era mais inteligente do que eles e era considerada a mais importante cientista da época. Tudo isso vinha de encontro com os conceitos machistas de Platão que se destacavam na época. Vários artigos dão a entender que ela foi morta de um modo violente por mãos de fanáticos cristãos que não estavam de acordo com o seu comportamento ateísta e neoplatonista. Carl Sagan escreveu: "Cirilo, o Arcebispo de Alexandria, a desprezava por ela ser próxima ao governador romano, e porque ela era um símbolo da ciência e do conhecimento, que eram amplamente identificados pela Igreja primitiva como paganismo. Sob grande perigo, ela continuou a ensinar e a publicar, até que, no ano 415, a caminho do trabalho, ela foi pega por um grupo de fanáticos da paróquia de Cirilo. Eles a arrancaram de sua carruagem, lhe rasgaram a roupa, e, armados com conchas de abalone, liderados por Pedro, o leitor, esfolaram a carne de seus ossos. Seus restos foram queimados, suas obras destruídas, seu nome esquecido. Cirilo tornou-se santo" Este depoimento de Sagan insinua que ela foi assassinada por questões religiosas.

 

Imputo isto como um raciocínio desprovido de lógica, pois, é preciso se entender que vários teólogos notáveis da época eram entusiastas do neoplatonismo, como Santo Agostinho e Santo Ambrósio. Isso significa que, dada a influência desses pensadores, as idéias de Hipátia dificilmente teriam sido vistas como perigosas pelos cristãos. Ela também tinha amigos cristãos, tinha alunos cristãos e era bastante admirada por vários deles. O melhor exemplo é o bispo Sinésio, que a escreveu muitas cartas, e disse que ela era "sua mais reverenciada professora". Ele a descrevera como "aquela que legitimamente preside sobre os mistérios da filosofia" Dzielska argumenta que, devido a ela, "a vida intelectual na cidade tornou-se singularmente vigorosa, com Grande Biblioteca. Meio milhão de volumes que representam as melhores mentes do mundo antigo. Escritos à mão, estes documentos eram insubstituíveis, o conhecimento perdido, a história destruído e eliminada, foi uma derrota devastadora.

 

O certo é que, independente das discussões entre teístas e ateístas, com o assassinato da cientista Hepatia e a destruição da Biblioteca da Alexandria, com a perda de milhares de papiros do mundo antigo nossa era entrou num período de “escuridão cultural” que provocou uma regressão na evolução mundial de centenas de anos.